A história do Independiente del Valle na América do Sul nos últimos dez anos é de dar inveja a qualquer equipe do continente.
Na CONMEBOL Libertadores, só não participou de uma edição e foi vice-campeão em 2016; na CONMEBOL Sul-Americana, conquistou os títulos de 2019 e 2022; e ainda ganhou a Recopa de 2023 em cima do Flamengo, exatamente o adversário desta quinta-feira na ida das quartas em busca da Glória Eterna.
Nas campanhas de sucesso desta última década, vitórias expressivas sobre Boca Juniors, River Plate, Corinthians e São Paulo. Um digno “Matador de Gigantes” pela América do Sul.
Na atual temporada, o aproveitamento do IDV é impressionante: são 32 vitórias em 40 jogos, líder disparado do Campeonato Equatoriano e nas quartas também da copa local.
“Acho que encontramos o caminho desde 2025, talvez até um pouco antes, já em 2024”, explicou Luis Fernando Saritama, diretor esportivo do Del Valle, em entrevista à ESPN. “A equipe alcançou 72% dos pontos obtidos com base nos jogos disputados, mas não levamos o título. Eu cheguei ao clube em 2025, e começamos a fazer uma análise do que havia acontecido em um nível geral em termos de desempenho e resultados. Iniciamos um processo de estruturação um pouco mais eficaz em termos da área de atuação ou detalhes do ponto de vista da área física, da área da estrutura da equipe, da formação”.
“Iniciamos um processo com uma nova comissão técnica – naquela época, uma equipe técnica europeia, com Javier Rabanal à frente. E estávamos estruturando um pouco todos os protocolos e regras internos do clube com muito mais controle e avaliação, e acho que isso gerou uma cultura esportiva de alto desempenho muito mais eficaz”.
“A partir daí no ano passado já demos os primeiros resultados com o título do campeonato local, chegamos à semifinal da Copa Sul-Americana, onde enfrentamos o Atlético-MG, e queríamos avaliar cada etapa, cada área, tanto em termos de resultados quanto de desempenho, e decidimos trazer Joaquín Papa, que eu acho que é onde também há um ponto de virada para consolidar muito mais a ideia de tudo o que estávamos propondo da gestão esportiva e você poderia ou ter tido uma ótima temporada”, continuou.
“Esperamos continuar assim. Embora seja verdade – o que foi feito até agora é positivo -, mas até que os objetivos sejam alcançados, ainda é apenas uma boa temporada”.
A escolha do treinador uruguaio, Joaquín Papa, é um dos casos que explica o sucesso dentro e fora de campo do Independiente del Valle. Aos 39 anos, ele está à frente de sua terceira equipe profissional, mas com um título do Apertura uruguaio pelo Liverpool em 2025. E esse mercado “alternativo” é mina de ouro para o clube.
“Quando tínhamos em mente tomar uma decisão na gestão técnica da equipe, começamos a analisar tudo o que o modelo institucional significa. Porque o Independiente se caracteriza por ter um modelo esportivo institucional que já está estruturado e que a cada ano tenta se consolidar – não apenas consolidar, mas evoluir a cada vez. Pensar em torná-lo mais eficaz. E é aí que temos um departamento de inteligência”, começou o dirigente.
‘Temos uma secretaria técnica que, junto com a gestão esportiva, analisa os padrões de todas as ligas sul-americanas que estão acessíveis para nós: embora seja verdade que vemos a Liga Argentina, a Liga Brasileira, acho que as ligas mais acessíveis em termos de mercado são a Liga Colombiana, a Liga Uruguaia, a Liga Paraguaia. E foi aí que tentamos encontrar a comissão técnica, ao avaliarmos muitos treinadores via departamento de inteligência”.
“Vemos como eles gerenciam seus padrões de jogo, qual é seu modelo de jogo, e avaliamos a capacidade técnica, ou as chamadas habilidades difíceis, habilidades sociais, como é a gestão de grupos, como ele estrutura suas temporadas em cada equipe em que teve a oportunidade de atuar. O caso de Joaquín foi uma grande aposta por parte de nós, do clube, porque sabíamos que no modelo de jogo ele tinha muitos padrões próximos aos princípios que tratamos, mas de alguma forma ele era um treinador muito jovem que já teve a primeira chance de sucesso com o Liverpool do Uruguai, mas sabíamos que era uma aposta e acho que foi muito positiva”, prosseguiu Saritama.
“Acho que ele se adaptou rapidamente ao que é o clube. Ele teve uma ótima gestão do elenco devido à rotação, pois usou praticamente todo mundo. Ele agregou valores importantes à primeira equipe com jogadores da base, e muitos conseguiram se destacar”.
A prospecção de jogadores é o que mais “assusta” na atual estrutura do IDV. Afinal, só na última Copa do Mundo, metade dos 26 jogadores da seleção equatoriana saiu da “cantera” do clube de Sangolquí. E a estrutura pelo país impressiona.
“O clube tem uma estrutura dentro da parte esportiva que é dividida em três variáveis: a primeiro é obviamente a base; a outra são os resultados; mas há uma fase anterior, que é o scouting. E há um departamento de scouting específico, liderado pelo espanhol Arkaitz Mota, que conseguiu estabelecer olheiros em todo o país. Temos olheiros nas regiões da serra, costa, leste, e isso está de acordo com todas as escolas de treinamento que temos em todo o país”, contou.
“Temos uma estrutura de talentos humanos espalhada por todo o país, onde naquela primeira fase do scouting, conseguimos ver os melhores jogadores desde o início, dos 9 aos 12 anos. Depois vem a fase de treinamento, que são nossas categorias de base, que nos permite ter jogadores treinados no clube e que já vêm de um plano desde um estágio inicial, com oito e nove anos, onde as crianças praticamente já estão se estruturando ou se concentrando em tentar fazer parte das divisões de base. Isso dá ao projeto uma vantagem porque conseguimos dar o primeiro passo, que é identificar talentos”.
Preparar os jovens jogadores com a mentalidade do IDV. Um assunto sério.
“Temos aproximadamente 300 escolinhas pelo país. Algumas são próprias, outras são combinadas, existem acordos de aliança, onde não está o Del Valle temos uma escola conveniada que faz parte da estrutura. E isso consegue gerar um ecossistema esportivo muito mais amplo e, acima de tudo, muito mais eficaz para que não percamos talentos do que futuro, com a formação, com o desenvolvimento do que temos da metodologia, possa atingir seu objetivo de ser um profissional, e ao clube de poder ter jogadores melhores no nível não apenas de base, mas também de que possam ser projetados para a primeira equipe”, falou Luis Saritama. Essa estrutura gigante, agora, tenta bater o Flamengo mais uma vez, tal como aconteceu na Recopa de 2023. Um choque de estilos na gestão, algo ciente pelo IDV, mas que não tira o entusiasmo para a partida em Quito – como o Estádio Banco Guayaquil não está apto a receber jogos nesta fase, o Del Valle atuará no Estádio Olímpico Atahualpa.
“Há um sentimento de entusiasmo, pois temos a possibilidade de estar nas quartas de final contra uma equipe que, embora já tenhamos certa história, sabemos da categoria de elenco que o Flamengo tem, do custo de investimento que a administração fez no clube e, de alguma forma, é um desafio para nós. Acredito que o desafio está em nós”, admite Luis Saritama.
“Talvez o destaque ou o favoritismo sejam dados ao Flamengo, mas sabemos que podemos usar nossas ferramentas para poder jogar em um estádio que é muito bom, onde há muita história no futebol equatoriano, pois o Atahualpa para nós foi palco de grandes partidas na Copa Libertadores da América de 2016”.
“Você está na Libertadores, e é aí que você se empolga sobre por que não competir contra eles e por que não passar essa eliminatória. Acho que vamos esgotar todos os nossos esforços, toda a nossa preparação, todos os nossos recursos para fazer uma grande eliminatória contra um rival que é o último campeão da Copa Libertadores e que tem um elenco realmente poderoso, não só em qualidade, mas em quantidade, e isso torna esse desafio muito mais forte, mas ao mesmo tempo muito mais motivador ser capaz de tentar cristalizar”, definiu o diretor esportivo.
A Libertadores é a taça que falta para coroar esse nascimento arrebatador do “matador gigantes”. E a ilusão está mais viva do que nunca.
“Estamos entre os oito melhores da América do Sul e podemos estar entre os quatro, é aqui que você tem que se desafiar. Na nossa vez, agora, está o Flamengo, o último campeão da Libertadores. Temos que buscar isso e, se dermos esse passo, cada passo que você der o levará a ficar mais animado para se tornar campeão da Libertadores. Então, vamos passo a passo”.
“Isso faz parte da nossa metodologia e filosofia como clube, e espero que em algum momento possamos conquistar o título. Já em 2016, o clube ficou a dois jogos de conseguir. E por que não? Por que não sonhar em algum momento em poder levantar aquela taça que todo mundo está procurando e que todos nós queremos”, admitiu Saritama.
Fonte: espn.com

